quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Uma Galinha (Clarice Lispector)

Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.

Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.

Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou — o tempo da cozinheira dar um grito — e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula, escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado.

Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.

Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se pode­ria contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma.

Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos. Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, pare­cia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos:

— Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem!

Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:

— Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!

— Eu também! jurou a menina com ardor. A mãe, cansada, deu de ombros.

Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.

Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga — e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado.

Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho — era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.

Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.


Texto extraído do livro “Laços de Família”, Editora Rocco — Rio de Janeiro, 1998, pág. 30. Selecionado por Ítalo Moriconi, figura na publicação “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”.

Um comentário:

Rosita - contos e encontros disse...

MULHERES, GALINHAS E MENDIGOS: CLARICE LISPECTOR, CONTOS EM CONFRONTO
Ligia Chiappini

Há um conto de Clarice que, na sua simplicidade, concentra significações que reverberam pela obra toda. Trata-se de Uma galinha. Espécie de alegoria da condição feminina, passou muito tempo desapercebido como tal para a crítica preocupada em desvendar a dimensão filosófica da obra.

Uma galinha é uma espécie de fábula irônica. Um domingo, a galinha escolhida para ser comida no almoço escapa do quintal e foge pelos telhados, perseguida pelo dono da casa improvisado em atleta de fim-de-semana. Este, finalmente, a alcança, levando-a de volta e depositando-a com certa violência no chão da cozinha, instante em que ela, de susto, põe um ovo e se salva, já que a menina da casa, seguida do próprio pai, reconhecem neste um filho, único motivo para a sobrevivência da galinha.

Como não reconhecer aí o mesmo movimento de outros contos de Clarice protagonizados por mulheres? Além do movimento de ida e volta, que temos em contos como Amor, Os laços de família e A Bela e a Fera, há expressões que se aplicam à galinha mas que valem para o estereótipo feminino. Como não ver a mulher passiva e doméstica de tantos outros momentos da obra que subitamente tenta um gesto, mesmo que fugaz, de independência, nessa galinha "estúpida, tímida e livre" que "tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar sem nenhum auxílio de sua raça"? Mais ainda se observarmos que o ovo salvador é como um filho "prematuro" e que a galinha "nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada"? E sobretudo quando a ela se aplicam as expressões: "jovem parturiente", "esquentando seu filho", "correr naquele estado", "rainha da casa" e "deu à luz"?

Por outro lado, é fácil associar essa galinha, tão inusitadamente segura de si "como um galo crê na sua crista", aos homens que "cantam de galo" em tantos contos onde se narra uma espécie de guerra surda entre os sexos, nos casamentos feitos sem amor ou nos quais o amor se acabou com a rotina da vida burguesa.

Como não ver nessa escolha para representar a mulher uma extrema ironia por parte de Clarice que não ignora a utilização da palavra galinha para significar mulher da rua, mulher fácil, mulher de muitos homens? Resgatando a dignidade da galinha e encarnando nela a mulher objeto, Clarice discute ironicamente essa grosseira comparação, por exemplo, através da menina que, em Uma história de tanto amor, "quando cresceu ficou surpresa ao saber que na gíria o termo galinha tinha outra acepção", pois, dizia ela: "é o galo , que é um nervoso, quem quer! Elas não fazem nada demais! e é tão rápido que mal se vê! O galo é quem fica procurando amar uma e não consegue!" Ou seja, o que a menina acaba nos dizendo com isso é que galinha é... o galo.

Se juntarmos portanto ao movimento de saída à rua e volta à casa com o que ele significa como tentativa de desalienação da mulher, a essa disputa com o homem, chegamos a iluminar outro aspecto que me parece da máxima importância em Clarice e que considero um ponto cego da crítica tanto quanto o foi, por muito tempo, a desconsideração do feminino nessa mesma obra. Trata-se da descoberta da pobreza por essa mulher confinada e protegida por um bom negócio matrimonial, mas reduzida a mecânicos atos quotidianos de auto-anulação, infeliz e culpada. A descoberta da pobreza dá-se junto com a autodescoberta como consumidora e parasita social, o que, de modo fulminante, desvenda o sem sentido da sua vida e da vida dos homens numa cidade grande que expõe talvez mais duramente os contrastes de uma sociedade injusta.

O conto em que isso está mais visível é um conto inacabado mas que, independente da forma final que iriam ter seus fragmentos, já como Clarice o deixou, revela talvez por isso mesmo, porque ainda não arranjado em obra, essa vertente temática que, a partir daí , podemos reconhecer, meio disfarçada, em outros momentos dos contos e, mesmo, dos romances.

Trata-se do conto póstumo A Bela e a Fera. A bela, Carla de Souza e Santos, "quatrocentos anos de carioca", sai do espaço defendido do cabeleireiro chic do Copacabana Palace Hotel aonde fora protegida em seu carro oleado, que corria "sem barulho de metal ferrugento", conduzido por chofer particular. Com ele deveria voltar diretamente à casa para, depois, dirigir-se a outro espaço defendido - o de uma festa grã-fina. O conto, narrado por fragmentos aparentemente desconexos, nos deixa entrever que, na vida da jovem senhora que o casamento fizera mudar de classe, a cidade do Rio de Janeiro é outra. É uma espécie de cidade-fortaleza onde habitam os viçosos, os que podem tudo, até mesmo viver uma vida inteira sem dar-se conta da existência da cidade real, em que trabalhadores convivem lado a lado com marginais e mendigos. Assim seria a vida de Carla, se não tivesse havido um imprevisto: o desencontro com o chofer, por ela ter saído do salão de beleza antes da hora combinada, agravado pelo fato de não contar com dinheiro trocado para o táxi. Essas são, aliás, as razões pretensamente objetivas que Carla se dá para subitamente sair porta afora da sua cidade defendida e descobrir a outra, a que começa na avenida Copacabana, onde há "pessoas de toda espécie". Mas o texto sugere também que essa saída é uma espécie de busca, de reencontro consigo mesma pelo encontro do outro de classe. Podendo "voltar ao salão de beleza e pedir dinheiro", desiste, porque a tentação da rua foi mais forte: "era uma tarde de maio e o ar fresco era uma flor aberta com o seu perfume. Assim achou que era maravilhoso e inusitado ficar de pé na rua - ao vento que mexia com os seus cabelos. Não se lembrava quando fora a última vez que estivera sozinha consigo mesma. Talvez nunca. Sempre era ela - com outros - refletia e os outros refletiam-se nela. Nada era... era puro, pensou sem se entender".

Como uma galinha, essa mulher é e não é e, depois de muito pensar é como se não pensasse nada. Como se diz em Felicidade clandestina: "Para falar a verdade, a galinha só tem mesmo é vida interior. A vida interior da galinha consiste em agir como se entendesse".

Quando Carla sai à rua, o olhar míope da mulher confinada de que nos falava Gilda de Mello e Souza quando da publicação de A maçã no escuro, descortina visões e pensamentos inusitados, fazendo-nos enxergar e ouvir o mundo que berra pela boca desdentada de um mendigo, como berrava pela boca do cego mascando chiclete, em Amor.

A visão do mendigo que vive de uma ferida na perna confronta Carla consigo mesma e com a sua própria ferida na alma: a alienação da mulher que se vendeu:

Agora entendia que se casara da primeira vez e estava em leilão: quem dá mais? quem dá mais? (...). Então está vendida. Sim, casara-se pela primeira vez com o homem que "dava mais". (...) Vendera-se. E o segundo marido? Seu casamento (está) findando, ele com duas amantes fora a mulher e a mulher suportava tudo porque um rompimento seria um escândalo: seu nome era por demais citado nas colunas sociais. (...) Aliás, ela aceitara este segundo porque lhe dava grande prestígio. Vendera-se às colunas sociais? Sim. Descobrira isso agora.

Descobrir isso é descobrir também que não se é uma self-made woman pelo simples fato de estar casada com um self-made man. Ressoa aqui aquela Macabéa que pensava que mulher de deputado é deputada. Finalmente, descobrir isso é tomar consciência do "tanto (que) lhe foi dado e por ela ávida, tomado." Tomado ou dado, o fato é que ela se sabe agora do lado das "manadas de mulheres e homens que simplesmente podiam", os que andam em máquinas sem ferrugem, e que fazem o leitor lembrar também , por contraste, da ferruginosa Macabéa, do livro contemporâneo desse conto, A hora da estrela.

Estar na rua , para a mulher que nunca sai de casa, é como recuperar a identidade perdida com o casamento; é voltar a ser. A Bela já fora taquígrafa, mas esquecera, como "esquecera a máquina", "o aperto nos ombros, as chuvas nas calçadas, os horários certos". O casamento por dinheiro apagara tudo isso, mas apagara também uma parte dela mesma que o encontro com o mendigo na Avenida Copacabana ameaça trazer de volta com força e perigosamente.

A alienação da mulher rica se expressa na festa permanente, sem nem ter o que festejar. E, na festa, os homens falam de negócios e as mulheres exibem a beleza fabricada a peso de ouro nos salões da Avenida Atlântica. Essa alienação é simétrica à do mendigo, expressa na cachaça que o ajuda a suportar a quotidiana exibição da sua mercadoria: a ferida na perna de que sobrevive. Festa e cachaça, obsessões respectivas em que um e outro costumam afogar uma falta comum - a falta de amor - e a pré-ciência de um destinno, apesar de tudo também comum: o da morte certa. Tudo isso é explicitado por este conto ainda de discurso transparente, talvez porque inacabado, anterior ao trabalho de polimento e de despojamento, das máscaras e dos mistérios de Clarice em suas versões finais.

Entre Uma galinha (Laços de família) e A bela e a Fera, passaram-se anos de escrita e vários outros contos e romances. A leitura de ambos hoje nos permite reler a obra de 60 a 77, encontrando sinais de uma permanente tematização, embora mais disfarçada, da situação da mulher na cidade que se moderniza e aprofunda selvagemente as desigualdades sociais, processo em que ela tem um papel importante dentro da classe média brasileira na construção do nosso chamado milagre econômico: é ela a principal consumidora; é para ela que os homens dizem trabalhar, é ela que eles querem comprar e é ela que decide se vender. Amor, Felicidade clandestina, Devaneio e embriaguez duma rapariga, Os laços de família e A imitação da rosa, são, entre outros, contos que podem ser confrontados sob essa perspectiva.

Parte da crítica de que a questão social se põe apenas nas obras finais (A hora da estrela e A Bela e a Fera). É o que pensa, entre outros, Darlene J. Sadlier, que mais uma vez desvincula duas mediações - da condição feminina e da lluta de classes, as quais, pelo contrário, vejo disseminadas e relacionadas por toda a obra de Clarice. Diz ela, em O texto e o palimpsesto: A Bela e a Fera ou A ferida grande demais.

Como grande parte de sua ficção, o conto descreve o tumulto privado e interior duma mulher; neste caso, porém, o tumulto é provocado por um encontro entre uma mulher rica de destaque social e um mendigo miserável. O conto intriga leitores e críticos porque envolve um contraste vívido entre ricos e pobres, assunto de caráter público nunca antes tratado por Clarice.

Já tive oportunidade de mostrar no ensaio citado, "Pelas ruas da cidade uma mulher precisa andar", como a pobreza na cidade maravilhosa se tematiza mesmo num livro hermético e aparentemente preocupado apenas com questões existenciais e estéticas, como A paixão segundo G.H., revelando aí muitos pontos de contato com outros momentos da obra em que a questão social se põe de forma mais explícita, mas ainda aliada às indagações filosóficas, como é o caso de A hora da estrela. O mesmo vale para os contos aqui mencionados, onde volta e meia se insinua o pobre e a fome em meio a epifanias que aparentemente nos levam muito longe dessa feia e dura realidade sobre a qual se debruçam de modo quase fotográfico os chamados brutalistas no mesmo período. Não podemos esquecer que a obra de Clarice atravessou um tempo de guerra; para boa parte dos intelectuais e para os trabalhadores brasileiros, um tempo de guerra perdida. Seu primeiro romance foi escrito no Estado Novo e o romance de que ela própria mais gostava (A paixão segundo G.H.) foi publicado em pleno ano do golpe militar. Seus contos e romances atravessam a ditadura, chegando até o início do que se convencionou chamar de abertura democrática. Esse tempo foi caracterizado com brevidade mas certeiramente por Walnice Nogueira Galvão do seguinte modo: considerando, nesse mesmo texto, o empobrecimento da prosa de ficção pós-68, Galvão reconhece a dificuldade de discernir "até onde vai a determinação das condições históricas específicas da conjuntura do país e onde começa a transplantação do thriller e do roman noir norte-americanos" numa literatura como a de Rubem Fonseca que apanha a violência da alienação na metrópole moderna ou como a de Dalton Trevisan, a violência das relações sociais na cidadezinha provinciana.

Clarice trilha o mesmo caminho, mas na contra-mão. No ensaio citado atrás, indico como ela dialoga com essa tendência da ficção que Alfredo Bosi chamou de brutalista, sem a ela aderir, apanhando por outro lado a mesma violência e o mesmo mal-estar do nosso capitalismo selvagem, mas resistindo até o fim à tentação do best-seller.

O mal-estar, porém, está aí e tem muito a ver com a troca que a classe média realizou: muitos sonhos por alguns eletrodomésticos e automóveis (como se disse cruel mas realisticamente também no mesmo encontro de Maryland) . O papel da classe média já foi suficientemente estudado por aqueles que procuraram desmistificar o "milagre brasileiro". Mas o papel da mulher consumidora, que talvez a sociologia esteja ainda por estudar, foi colocado volta e meia em pauta por Clarice Lispector.

De fato, em Clarice, o tema da mulher objeto, freqüentemente vendida num casamento sem amor aparece desde, pelo menos, A cidade sitiada, não por acaso, um romance que trata da passagem de um subúrbio à cidade grande. O mesmo tema reaparece em contos pelas décadas de 1970 afora, reiterando-se , de forma mais clara e até esquemática, no conto inacabado A Bela e a Fera. Aparentemente conformadas com a rotina da vida burguesa, essas mulheres sempre correm o risco de subitamente confrontar-se com o sem sentido de suas vidas, ao lado de seus maridos bem postos nos negócios e dentro de suas casas confortáveis. São momentos em que, como "uma galinha", a mulher sai à rua , foge e quase vira um galo prestes a anunciar um novo mundo possível e uma nova possibilidade de ser mulher dentro dele.

É o momento em que uma jovem mãe escapa ao "belo" sábado do marido, ganhando a rua com o filho pela mão em busca de reconquistar a relação perdida do amor verdadeiro, atravessado pelas convenções do papel quotidiano de mãe e esposa:

Quem sabe se sua mulher estava fugindo com o filho da sala de luz bem regulada, dos móveis bem escolhidos, das cortinas e dos quadros? Fora isso o que ele lhe dera. Apartamento de um engenheiro. E sabia que se a mulher aceitava da situação de um marido moço e cheio de futuro - desprezava-a também, com aqueles olhos sonsos, fugindo com seu filho nervoso e magro. O homem inquietou-se. Porque não poderia continuar a lhe dar senão: mais sucesso. E porque sabia que ela o ajudaria a consegui-lo e odiaria o que conseguissem. Assim era aquela calma mulher de trinta e dois anos que nunca falava propriamente como se tivesse vivido sempre.

É o momento em que a mulher senta com o mendigo, ama o cego, come a barata, enxerga Janair, vê Macabéa na feira nordestina e escreve sobre ela para exorcizá-la e ao mesmo tempo denunciar que ela existe e consegue ser possível num mundo todo feito contra ela.

São todas mulheres-galinhas que abotoam e desabotoam os olhos, passivas, remoendo o mal-estar e, de repente, explodindo num pequeno ato heróico que não vale nada a não ser, talvez para os leitores, sobretudo para nós, leitoras, como uma ponta de interrogação desestabilizadora e provocadora de um mal-estar semelhante. Será que ainda somos leitoras para Clarice Lispector? Mulheres da rua que somos hoje? Não mais confinadas ao lar, mas empreendendo como o homem-engenheiro o conforto quotidiano de todas nós? Será que nos desconfinamos? Então por que ainda nos tocam as pequenas rebeldias das mulheres de Clarice e a sua teimosia em subir no telhado e apontar o mendigo?