domingo, 14 de setembro de 2008

Diante da Lei (Kafka)

Diante da lei
Franz Kafka
Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo chega a esse porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde.
-É possível - diz o porteiro - mas agora não.
Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta e o porteiro se põe de lado o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso o porteiro ri e diz:
-Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala porém existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a simples visão do terceiro.
O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo, a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta.
Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido e cansa o porteiro com os seus pedidos. Às vezes o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe a respeito da sua terra natal e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que os grandes senhores fazem, e para concluir repete-lhe sempre que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que havia se equipado com muitas coisas para a viagem, emprega tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Com efeito, este aceita tudo, mas sempre dizendo:
-Eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa.
Durante todos esses anos o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos amaldiçoa em voz alta e desconsiderada o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo. Torna-se infantil e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião.
Finalmente sua vista enfraquece e ele não sabe se de fato está ficando mais escuro em torno ou se apenas os olhos o enganam. Não obstante reconhece agora no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem:
-O que é que você ainda quer saber? pergunta o porteiro. Você é insaciável.
-Todos aspiram à lei - diz o homem. Como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?
O porteiro percebe que o homem já está no fim e para ainda alcançar sua audição em declínio ele berra:
-Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a.

Franz Kafka (Praga, 3 de julho de 1883 - Klosterneuburg, 3 de junho de 1924) foi um escritor de língua alemã.

9 comentários:

Rosita disse...

Na discussão de ontem vimos que o texto permite uma ambiguidade interessante: o homem entra na lei ao morrer ou ele espera até sua morte sem poder entrar?
Se a porta estava destinada somente a ele e naquele momento o guardião a fecha, significa que finalmente o homem entra?
Nao fica claro se o guardião fecha a porta porque chegou o momento em que o homem deve entrar (o momento da morte: passagem para outro mundo?, ou se ele jamais entrou.
O que acham?

lobo do cerrado disse...

Concluo do conto que a lei é esta: "cada ser humano é o dono do seu destino", é livre para concretizá-lo, embora a maioria não perceba isso e acredite que a auto-realização depende da boa vontade dos outros, dos poteiros. Essa percepção equivocada faz com que muitas vidas sejam vãs, toscas. Aquele que pensou que o poder era verdadeiramente do porteiro envelheceu e morreu, simplesmente.

CLAUDIO GARCIA disse...

perdoem minha pedância , mas contudo espero contribuir para dar uma outra visão interpretação para este texto..
como visto após na explicação do eclesiastico , temos a descrição dos atos e maneiras dos agentes da historia..
Isto significa q o texto só é transcente a ele mesmo ao próprio livro..
ele aclara e resume o espirito do livro é uma explicação e extenção do direito natural e ao sistema estruturado que se cria para levar o direito a quem o realmente possui..
ele diz sim que a porta pertence apenas àquele homem ou seja é seu direito de ingresso a lei "direito imaterial, etéreo" pelo qual alienou sua liberdade para que pudesse possuir o direito a lei. o guarda a porta cumpre sua função pois foi a que lhe foi designada pela propria lei ou pela estrutura que foi criada para cumpri-la kafka coloca em prova q qualquer estrutura construida para levar o homem ao seu direito falhará e que não é culpa de ninguem em especial tendo em vista que o guarda é um bom sujeito e cumpre sua função ele coloca que o acesso ao direito é um bem humano fundamental mas é tolhido ao homem pela estrutura que a sociedade cria q o oprime pois o único e real mal que o guarda possui é a intransigência de suas ordem que nao permitem a crítica e que ele cumpre rígorasamente sem questionar .. não importa quem fossem os guardas eles sempre teriam de seguir as ordem e tambem a hierarquia é limitatoria do ponto de vista do guarda pois teme seus superiores e isso lhe infunde medo de questionar.. quando a lei, que é feita para dar acesso ao campones, nao permite a entrada; ela se inviabiliza . kafka coloca primorasamente oque vemos no serviço publico e no governo hj que o bem publico deveria servir ao publico mas sempre existe um guarda q nao permite que o dono do bem o use mesmo sendo este feito para servir ao publico....

lucas vor disse...

Vlw msm cara me ajudou mt :)

Chris Tegethoff disse...

Bom, pessoal, este conto do Kafka é realmente incrível, mas gostaria de dar a dica também para que leiam o conto "Der groβe Wildenberg" ou "o grande Wildenberg" do Siegfried Lenz que lembra muuuuito o conto "Vor dem Gesetz" ou "Diante da Lei", mas sob uma perspectiva diferente. Caso queiram comentá-lo comigo, meu blog é falealemao.blogspot.com!
Abraço
Christiane

wii maniacs disse...

Ao meu ver, o camponês tem a função de retratar a sociedade, o cidadão. De acordo com o texto, somos levados a crer que o Porteiro seria um burocrata que usa de seu conhecimento, ou do "suposto" poder que o mesmo possui, para evitar a entrada do cidadão na lei(portão), ao momento em que ele revela ao cidadão(que neste momento ja se encontra a beira da morte) que o único que poderia adentrar aquele portão era o próprio cidadão.Isso nos mostra a falta de conhecimento da população na hora de conhecer e recorrer aos seus direitos, muitos morrem sem saber que a LEI foi feita para nós(cidadãos),dai o trecho:"-Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a".

Sandro Felipe
Estudante do primeiro ano de Direito da FDSBC.

G_ALMEIDA disse...

nesse caso o que qual o papel das "pulgas no casaco", no qual o autor diz no texto?

METAFORICANDO disse...

O que eu entendo do texto, dentro do contexto do livro de Kafka e, principalmente, dentro do contexto histórico da época em que foi escrito este livro(pois acredito que para a melhor compreensão da passagem é necessário conhecer o contexto histórico e o espírito em que está inserida) é que Kafka levanta uma crítica visionária sobre a estrutura organizacional tirânica em que se embasava o judiciário à época.
a discricionariedade dos juízes (vide que ele menciona 3 guardas..guardas estes que são assim chamados pois são responsáveis pela segurança jurídica, pela proteção da Lei..ou seja..são nada mais nada menos que juízes...de 1ª e 2ª instância e um terceiro que é superior aos outros dois..essa estrutura já existia à época de Kafka vez que já era assegurado a todos o grau recursal de jurisdição)..os ideias de justiça universal e indiscriminada, entretanto, eram utópicos e os magistrados não tinham o dever da imparcialidade...
No filme Kafka mostra a discricionariedade do poder em questão quando processa e julga um homem sem dar-lhe qualquer explicação para tanto e ali ele morre sem nunca conhecer as razões pelas quais foi levado à corte no pólo passivo de um processo judicial..
A crítica, por fim, contempla essa discricionariedade do poder judiciário e a utopia de seus princípios e conceitos de justiça...mostra que o respeito as normas mais suprimiam os direitos do que os garantiam...
e muitas das vezes as pessoas vinham a falecer sem sequer conhecer a face da Lei..

METAFORICANDO disse...

o papel das pulgas, ao meu ver, pode ser interpretado como o conhecimento sobre o próprio judiciário..
o Homem passou tanto tempo diante da porta da Lei que a conheceu..e naquela época conhecer a Lei era algo que poucos conseguiam...aliás...hoje ainda é assim..muito mais por desinteresse do que por impossibilidade, mas a verdade é que poucos conhecem os seus direitos (quem trabalha com direito, principalmente em trabalhos sociais, defensoria pública e advocacia privada, sabe disso)...
mas naquela época a impossibilidade era a grande vilã...e esse homem, especificamente, passou tanto tempo às portas da Lei esperando acesso a justiça que acabou por conhecê-la...por conhecer o juíz que o tolia em seus direitos...por conhecer a estrutura do poder ao qual era negado ao acesso...mas de nada adiantava conhecer...pois o acesso não dependia do conhecimento...
ele podia conhecer a justiça e ainda assim não teria acesso a ela...
pois o que kafka quis dizer no final das contas..era que a justiça existia apenas objetivamente...pois só alcançava a poucos em detrimento de muitos